ENTREVISTA.. 06/06/2004 - CORREIO DO ESTADO
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PARA UM AMIGO 

O ex-presidente do Incra, Xico Graziano, 51 anos, esteve recentemente em Campo Grande para lançar seu livro “O Carma da Terra no Brasil”,e fazer palestras para estudantes, produtores rurais e consultores de agronegócios.
Graziano, que atualmente é presidente da ONG AgroBrasil, tem um currículo extenso ligado aos problemas do campo no Brasil: é colunista dos jornais O Estado de São Paulo e O Globo, deputado federal (1998-2002), secretário de Agricultura de São Paulo (1996-98), e chefe de Gabinete Pessoal do presidente Fernando Henrique Cardoso. Com vasta experiência acumulada, Graziano vem sendo cada vez mais requisitado para discutir problemas vinculados à reforma agrária. Para ele, o modelo distributivista materializado na forma de assentamento de trabalhadores sem-terra está fadado ao fracasso. Pelas suas análises, esse é problema decorrente da falta de emprego nas cidades e somente será solucionado com a retomada do processo de desenvolvimento.
Nesta entrevista exclusiva concedida na semana passada ao Correio do Estado, o ex-presidente do Incra declarou que considera um “escândalo” a compra e o uso da Fazenda Itamarati para fins de reforma agrária. A seguir, os principais trechos de seu depoimento, que consegue esclarecer e polemizar ao mesmo tempo:
Dante Filho

“A idéia de reforma agrária foi superada”

Qual é o tema de seu novo livro— “O Carma da Terra no Brasil”?
É um livro escrito em forma de narrativa que combina autobiografia com idéias acadêmicas sobre a questão da terra, da reforma agrária, etc, pesquisadas durante 30 anos. E é também a história de uma desilusão. A reforma agrária tornou-se uma grande desilusão. Esse é um conceito que não funciona mais, não dá certo. A reforma agrária foi uma idéia muito apropriada para os anos 60, quando o País aindaera eminentemente rural, cheio de latifúndios. Passados 40 anos, quando a situação é completamente diferente, tudo isso virou um processo quase que por definição impraticável.

É a idéia de reforma agrária que não vingou ou é o modelo de reforma agrária que tenta se aplicar que não dá certo?

São as duas coisas, porque o modelo expressa uma idéia. A idéia é a do distributivismo. Então, esse dado gera um modelo que é inaplicável. Quando eu próprio rompi com esse pensamento — sempre fui muito favorável à reforma agrária — a partir de minha tese de doutoramento de 15 anos atrás, naquela época eu já começava a perceber o engodo e fui considerado quase um herege frente a um pensamento quase que único que existia sobre o tema. Mas naquela época era mais as idéias contra as idéias. Hoje se tem uma prática consolidada de reforma agrária: temos 5,5 mil assentamentos, temos 600 mil pessoas assentadas, temos 25 milhões de hectares distribuídos simplesmente para nada.

Mas os assentamentos não são importantes para estimular a agricultura familiar e, com isso, podendo abrandar, inclusive, na ponta do processo, a violência nas cidades?
Visitei muitos assentamentos. Concluí que isso não resolve. Se pelo menos resolvesse o problema da
subsistência e desafogasse a marginalidade nas cidades, até poderíamos defender o modelo. Acontece que a gente vê o grau de abandono nos assentamentos e a venda de lotes, que gira em torno de 40%, e não consegue enxergar onde isso dará certo...

Mas se o modelo vigente de reforma agrária não está dando certo, o que, então, dará certo, qual a saída?

A idéia de reforma agrária foi superada. A realidade do mundo mudou. O País não é mais rural, é urbano e a tecnologia é outra. Eu diria o seguinte: o grande drama agrário do nosso País não está mais nos sem-terra, e sim nos com-terra. Esses não têm 500 mil. Essa transformação se deu em 50 anos. Não está mais na hora de criar agricultores e sim cuidar dos que estão aí trabalhando. Porque o mundo hoje ficou tão competitivo, a evolução da tecnologia é tão rápida, os mercados são tão diferenciados (e muitas vezes cruéis) que não sobra alternativa: temos que ter políticas de amparo àqueles que produzem. Esse é o núcleo da nova questão agrária.

Mas não dá para fazer as duas coisas juntas: atender o produtor e distribuir terras para ver no que dá lá na frente?
Acho que não. Temos que desenvolver outra política. Não podemos pensar em distribuir terra e sim cuidar do emprego. O drama do mundo hoje é emprego e não um pedaço de terra para cada um. Isso é um engano.
Mesmo essas pessoas que até de forma oportunista, manipuladas pelos MSTs da vida, vão para os
acampamentos, elas, de certa forma, são desempregados urbanos. O que eles querem no fundo é emprego.
Como não tem, entram nesses movimentos de maneira meio voluntarista. Se o País voltar a crescer e gerar emprego, o movimento dos sem-terra acaba por si só. E aí vai ficar mais claro ainda que o problema é cuidar dos pequenos e médios agricultores. Eles são atualmente 4,5 milhões em nosso País. São trabalhadores com-terra. Esse que é o xis da questão.

Por que nos meses de abril e maio as invasões de terra se intensificam no Brasil? Qual a razão dessa
sazonalidade?

O mês de abril tem a ver com o massacre de Eldorado de Carajás, que aconteceu no dia 17 de abril. Usam esse dia para concentrar uma estratégia de luta. É apenas uma razão simbólica. Além do mais, no ciclo agrícola, abril também é um mês em que terminou a colheita. Em janeiro e fevereiro não dá para invadir terras, está chovendo muito...

Na história da reforma agrária do Brasil, onde está localizado o MST?
Vou lhe dizer uma coisa: o MST tem uma origem sadia. Como movimento social, no começo dos anos 80 surgiu defendendo a causa de parceiros e posseiros no Rio Grande do Sul. Ali havia muitos produtores rurais precários, especialmente de uma fazenda enorme, que foram empurrados para fora das terras por conta da mecanização da agricultura. O movimento sem-terra surge na fazenda Anoni, na virada dos anos 70 para os 80. E surge como movimento social legítimo. E depois, com a modernização da agricultura, progressivamente, o MST vai se transformando naquilo que é hoje. Não é mais um movimento social, não tem nenhuma característica desse tipo, se transformou numa organização rígida, tem hierarquia, paga salários, custa caro, faz treinamento de pessoas, mantém estruturas paramilitares, ou seja, transformou-se numa máquina dependente do Estado. Tudo o que MST faz, especialmente as últimas ações, está deixando claro que faz com outros objetivos que não são propriamente
a posse da terra.
Tudo é feito para pressionar o Governo epara abocanhar recursos, para discutir ações políticas, para manter convênios que tem com organismos internacionais, enfim, para manter a máquina chamada MST funcionando.
Mas o futuro do MST é incerto. Ele pode se transformar num partido político ou pode simplesmente desaparecer.