"O entrevistado da revista Isto É Dinheiro Rural desse mês é Xico Graziano. Ele ressalta que o problema do campo não reside mais na terra, mas sim no emprego. Caso não disponha da revista a entrevista completa segue abaixo. Não deixe de ler"
Xico Graziano é considerado uma espécie de guru do agronegócio brasileiro. Ex-presidente do Incra, ex-secretário de Agricultura de São Paulo e, no momento, deputado federal pelo PSDB, o engenheiro agrônomo acredita que a crise no setor é falta de cautela dos produtores. Da mesma maneira, ele não poupa críticas ao processo de reforma agrária do País, que classifica de atrasado. A frente do projeto de criação da Agência Reguladora do Agronegócio, Graziano recebeu DINHEIRO RURAL em São Paulo para a seguinte entrevista: DR - O agronegócio está vivendo uma grave crise. Que lição é possível tirar desse momento? XICO GRAZIANO - O alerta foi dado nas safras anteriores, especialmente na última. O que tem que surgir é uma melhor profissionalização das fazendas. Os produtores precisam ter um raciocínio mais empresarial. O agricultor brasileiro sempre foi muito arrojado, mas isso leva a uma certa imprevidência, no sentido de que eles não poupam recursos. Ganham dinheiro, compram mais terras e máquinas. Foram bem na safra anterior; mas agora não tem dinheiro para pagar a conta do banco. Aí vem o problema do endividamento. DR - Como é possível ser arrojado e previdente ao mesmo tempo? XICO GRAZIANO - É preciso entender que não adianta só produzir; é preciso vender. Os americanos fazem isso lá pelo menos três décadas. Eles decidem o que e quando vão plantar em função da demanda do consumo global. No Brasil, pelo fato de haver muita terra, a ampliação da produção acontece de forma caótica, sem planejamento. No máximo, o Ministério da Agricultura consegue dar sinais de que o crédito de custeio aumentou ou diminuiu. Mas isso é muito pouco. A nossa grande vantagem em oferta de terras agriculturáveis se torna uma fraqueza do ponto de vista do planejamento da produção. DR - Qual seria o papel do governo nesse planejamento? XICO GRAZIANO - O governo precisa assumir uma função de indicador, balizador. E não mais do que isso. Hoje, é o mundo do mercado, do empreendedor: O Roberto Rodrigues criou mecanismos interessantes através das câmaras setoriais. Eles podem se tornar instrumentos importantes ao identificar os estágios da cadeia produtiva, apontando se vão faltar insumos, se vai ser preciso importar produtos... No mais, é um problema dos produtores. Eles precisam aprender a se organizar. Não adianta na hora seguinte chorar para o governo. O produtor está acostumado a reclamar do governo, mesmo de tarefas que são deles. DR - No caso de aumento de área, por exemplo, quem poderia centralizar esse tipo de decisão? XICO GRAZIANO - É claro que em um sistema de mercado não se pode proibir ninguém de fazer nada. Mas é possível sinalizar os efeitos com o tempo. Onde está a dificuldade? Os produtores brasileiros não tem tradição organizacional. Só agora as cooperativas começam a se tornar entidades com credibilidade. Isso cabe aos produtores melhorar. E o governo tem de ajudar. DR - O sr. é um dos idealizadores do projeto da agência reguladora. Como ele pode contribuir? XICO GRAZIANO - A idéia da agência é trabalhar para prevenção de crises. Procurar ter informações e mecanismos ágeis para tomar decisões. E a idéia é que seja um orgão operacional. Nossa idéia é que a agência regulasse, por exemplo, as autorizações para o pagamento de seguro rural, que ainda não funciona direito no País. Hoje, é um processo complicado. No ano passado, foi só depois de 3 meses que o Banco do Brasil começou a chamar os produtores afetados pela seca no Sul. Isso deveria levar 15 dias. A agência reguladora também iria sinalizar se, por exemplo, faltaria soja na safra. DR - Mas esse não é um trabalho que a Conab faz? XICO GRAZIANO - Hoje, existe um problema muito grande de credibilidade de informação. Ninguém acredita em ninguém. Aliás, a Conab está se especializando em apavorar os produtores. Sempre a primeira estimativa da safra é absurda. Parece que é para jogar os preços mais para baixo ainda. Todo ano a Conab divulga uma estimativa de safra recorde. Depois os técnicos dizem que que a safra quebrou. É que a previsão foi tão extraordinária que ela não se cumpre mesmo. DR - A agência não pode acabar esvaziando o Ministério da Agricultura? XICO GRAZIANO - Não esvazia porque a agência é subordinada ao ministério. Não dá para o Ministério ficar dependendo de autorização do Conselho Monetário Nacional para repactuar uma dívida do Funcafé, cujos recursos já foram aprovados pelo orçamento. Tudo fica na dependência do ministro da Fazenda. Os funcionários do ministério da Agricultura estão muito preocupados. Mas a agência vai ajudar o Ministério a ficar mais forte. DR- E o projeto sai esse ano? XICO GRAZIANO - Em uma ano eleitoral é difícil que o projeto saia do papel. Isso porque é preciso aprovar uma lei para criar a agência. De qualquer forma nós vamos procurar os candidatos à Presidência da República. E dizer que o Ministério do jeito que está não funciona. Não adianta colocar ministro bom se o Ministério é fraco. Fica o Ministro Rodrigues mendigando recursos para a aftosa. É o fim da picada! DR- E por que o Ministério se encontra nessa posição? XICO GRAZIANO - Falta incluir na política econômica do governo as questões ligadas à agricultura. Hoje, a agriculturaainda é tratata à parte. O que nós queremos ver é a política econômica contemplar a agricultura no processo de emprego e renda no campo. Com as fronteiras se expandindo para o Piauí e o Maranhão, está mudando o desenvolvimento brasileiro. Está ocorrendo uma interiorização do País ea política econômica do governo não enxerga isso. O maior exemplo é a questão do transporte degrãos. É dramática a situação das estradas para a logística de escoamento de safra. DR - Os investimentos estão quase parados nessa área... XICO GRAZIANO - Nos últimos seis anos, a safra tem crescido em direção ao interior. Regiões como o Oeste da Bahia, Norte de Tocantins, Sul do Maranhão simplesmente não existiam em termos de produção rural. Para piorar; hoje temos dois Ministérios que cuidam da mesma pasta: a Agricultura e a Reforma Agrária. Ou seja, temos o Ministério dos grandes e o Ministério dos pequenos. Um é o Ministério do agronegócio e o outro é o da agricultura familiar - e que disputam verbas entre si. Tudo isso por conta do dilema histórico que confundiu agricultura familiar com agricultura de pobre. DR - Por que o processo de reforma agrária está emperrado? XICO GRAZIANO - Os assentados deveriam ser emancipados. Eles não podem ser tutelados pelo poder público, como se fossem uma nova espécie de funcionário público. Eles tem que ter os títulos de terra para se tornarem agricultores. Mas não há oposição entre agricultura familiar e agronegócio. O processo de reforma agrária está esgotado. A urbanização deixou nossas idéias sobre reforma agrária ultrapassadas. Eram teorias que nós desenvolvemos nos anos 60 para os 70. O dilema já não está mais na terra, mas sim no emprego. DR - Mas como é possível criar emprego e renda no campo, sem fazer reforma agrária? XICO GRAZIANO - Estão sendo criados empregos e renda no campo com a expansão da fronteira agrícola. O Brasil se tornou o maior exportador de carne bovina do mundo. Isso está gerando milhares e milhares de empregos pelo País. O mesmo vale para a exportação de frango. Esse é o processo importante da agricultura. DR - Mas os assentamentos criam empregos para essas pessoas? XICO GRAZIANO - Cerca de 40% dos assentados deixam seus locais e voltam para as cidades. Esse é um processo bom para o MST - não para o Brasil. Alguém já ouviu falar da produção dos assentamentos de reforma agrária? Ninguém nem sabe. Há exemplos de assentos produtivos. Entre os 6 mil assentamentos eles não chegam a 100. Estamos criando um problema para o futuro. Nas minhas contas, o País já gastou R$ 50 bilhões com a reforma agrária. Cada família assentada custa cerca de R$ 60 mil e o retorno é pequeno. O custo benefício não compensa. DR - Mas, se há alguns assentamentos produtivos, isso significa que a reforma agrária poderia funcionar? XICO GRAZIANO - Um modelo baseado em invasões de terra não pode dar certo. Os invasores não são as pessoas mais qualificadas para gerir a terra. Seria preciso muito treinamento. Por que não distribuir a terra para filhos de pequenos agricultores que já foram treinados no campo? Eles poderiam se tornar bons pequenos produtores. Hoje, quem invade a terra é pobre e excluído das cidades. Os assentamentos que deram certo foram de posseiros deslocados de outras áreas. No Rio Grande do Sul, muitos assentamentos funcionam porque os agricultores tem esse perfil. No Pontal do Paranapanema ou no Pará, não foi assim e não deu certo. DR - E qual o futuro desses assentamentos? XICO GRAZIANO - Hoje, a safra brasileira de grãos é produzida e 42 milhões de hectares. Já se distribuiu 25 milhões de hectares para a reforma agrária. Se todos eles se tornassem rapidamente produtivos, seria a maior quebradeira da história da agricultura. A expansão de 3 milhões de hectares na safra da soja derrubou o preço. Ou seja, é bom que o modelo não funcione. É a velha equação de oferta eproduto. DR - E o mercado de biodiesel? Não pode ser uma saída para esses agricultores? XICO GRAZIANO - É um projeto futurista. Agora, querer fazer reforma agrária utilizando mamona no projeto de biodiesel é uma barbaridade em termos de economia rural. O biodiesel da mamoma é mais difícil. Não da ára fazer política social com biodiesel. O projeto só vai deslanchar com o pessoal da soja. Por que não colocar pequeno agricultor para produzir o grão? Criou-se uma dicotomia que a soja é do agronegócio e a lavoura é do agricultor familiar. É uma grande bobagem. DR - Em janeiro, os ingleses acusaram a carne brasileira de ser barata por conta de usar trabalho escravo. O que o sr. acha disso? XICO GRAZIANO -Essa história de trabalho escravo é um absurdo. É claro que existem fazendeiros picaretas que têm trabalhadores em condições degradantes. Mas generalizar que há trabalho escravo no Brasil écomplicado. Não adianta achar que o País vai ganhar mercados e os concorrentes vão ficar quietos. Hoje, o País está crescendo na exportação de frutas. Logo vai aparecer alguém acusando que omamão e a manga têm problemas. Fevereiro de 2006 Fonte: Revista Dinheiro Rural Fabiane Stefano