Fazendeiros que quiserem vender terras para o governo
não vão mais esperar até 20 anos para resgatar os TDAs;
o que ale agora é a "modalidade de compra e venda", com papéis
resgatáveis a partir do segundo ano da emissão.
Sem alarde, o governo Lula arquivou de vez a reforma agrária que o
PT e o MST sempre defenderam. No dia 17 de junho, quando todas as atenções
políticas estavam voltadas para a batalha pela aprovação
do salário mínimo, o governo editou a Medida Provisória
192 que é, como define o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário
[governo FHC] e deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE), a mais "contundente
e avassaladora ruptura com tudo o que o PT e o MST pregaram"
Pela MP 192, sai a reforma agrária
da pressão, invasão, ocupação, resistência
e assentamento para entrar a reforma agrária do mercado de terras.
Não é menos significativo, também, o fato de o governo
Lula investir cada vez mais no financiamento da agricultura familiar e manter
em banho-maria os planos de assentamento dos sem-terra.
Alegando, na exposição de motivos, tratar-se de um "instrumento
ágil e eficaz para o cumprimento das metas do Plano Nacional de Reforma
Agrária", por meio da Medida Provisória 192, assinada e
editada sem solenidade e sem maiores divulgações, o governo
admitiu que não existe a fartura de latifúndios improdutivos
que sempre disse existirem para fins de reforma agrária. Com a MP 192
o governo reconheceu exatamente o contrário, que as terras improdutivas
para assentamento de sem-terra são pouquíssimas ou inexistem
e, por isso, precisou criar um atrativo para que os fazendeiros vendam terras
ao governo do contrário, não terá como atender
ao exército de sem-terra liderado por João
Pedro Stédile.
A MP da nova redação ao parágrafo 4o do artigo 5o da
lei 8.629, de fevereiro de 1993, que dispõe sobre a forma de pagamento
das indenizações decorrentes da desapropriação
de terras, e acrescenta os parágrafos 7, 8 e 9 "dispondo sobre
a forma de pagamento de imóveis rurais pela modalidade de compra e
venda". A MP permite que os TDAs (Títulos da Dívida Agrária)
dados como pagamento das terras desapropriadas, antes resgatáveis em
cinco, dez, quinze ou vinte anos, dependendo do tamanho da propriedade (pequena,
média ou grande), sejam resgatados "a partir do segundo ano da
emissão".
Antes da MP, o resgate era tão demorado que alguns fazendeiros recebiam
o valor dos títulos com até 50% de deságio.
A MP deixa claro que o governo quer comprar "imóveis rurais insuscetíveis
de desapropriação por interesse social" para fazer a reforma
agrária. Na exposição de motivos, o governo Lula admite
com todas as letras que a reforma agrária implica a "imperiosa
aquisição [de terras] pela modalidade de compra e venda".
Para o engenheiro agrônomo e ex-deputado federal tucano Xico Graziano,
"o governo federal está legalizando e fortalecendo a reforma via
mercado de terras" e enterrando a satanização do que sempre
tratou como "mercantilização da terra", escreveu ele
em artigo no jornal O Estado de S. Paulo. Outro detalhe registrado por Graziano,
em relação à data de edição da Medida Provisória
192: foi assinada, por Lula, "enquanto o ministro [Miguel] Rossetto,
da esquerda petista, almoçava com o Stédile e Frei Beto [assessor
especial do Planalto] lia a carta do presidente para agradar o MST, quando
comemorava seus 20 anos.
O PT e o MST, que passaram duas décadas acusando os governos anteriores
ao de Lula de benevolência para com os fazendeiros e de facilitar o
pagamento das terras desapropriadas com TDAs as benfeitorias são
pagas em dinheiro , leram na exposição de motivos da MP
192 a seguinte avaliação da legislação herdada
dos governos Itamar/FHC, que a medida quer modificar: "A legislação
atual prevê o pagamento em condições que tornam as aquisições
extremamente difíceis, quando não inviáveis".
Viva a insanidade, dane-se o custo
Ouvindo especialistas como Xico Graziano e Raul Jungmann,
chega-se à conclusão de que a MP 192 é recheada de pontos
obscuros; o abril vermelho contra terras produtivas começa
a fazer sentido
Por Rui Nogueira
Envolvido com as negociações em torno do salário mínimo,
a esquerda do PT, para quem reforma agrária é sinônimo
de pau no lombo de todo e qualquer fazendeiro e do agronegócio,
ainda não se deu conta do conteúdo da Medida Provisória
192. Nem a Carta ao Povo Brasileiro, da campanha eleitoral de 2002, tem significado
político tão profundo.
Partindo do PT, a MP 192 é, aparentemente, um ato impensável
até a véspera do dia em que ela foi editada pelo Planalto, dia
17 de junho. Mas está dentro do plano de reconversão à
realidade que o governo Lul impõe desde 1o de janeiro de 2003 ao PT,
aos aliados e aos seus eleitores. Mesmo explicitadas todas as circunstâncias,
em contraposição a tudo o que o PT e o MST disseram sobre a
reforma agrária empreendida pelo governo Fernando Henrique Cardoso,
a MP é simplesmente chocante.
O texto é uma queda nas profundezas da realidade, mas é um ato
legal cheio de armadilhas. O ex-ministro Raul Jungmann chamou a atenção
para a remuneração das TDAs [leia, na homepage, entrevista com
o ex-ministro e deputado federal].
É de se esperar que o governo Lula seja tentado a incentivar o comércio
de terras com bem mais que o resgate em curto prazo dos títulos
e dá-lhe juros, no que o governo do PT se tornou um expert.
O agrônomo Xico Graziano põe o dedo em outra ferida e diz que
a liquidez das TDAs pode servir a tentações que os mortais urbanos
desconhecem. Graziano não acha graça na ironia da história,
o fato de a reforma agrária ser mercantilizada exatamente por
aqueles que mais combatiam a lógica do mercado. Eis o alerta
do agrônomo: Facilitando a arrecadação de terras
via negociação direta, propriedades produtivas podem estar ameaçadas.
Com a influência do MST e da Contag no
Incra, basta jurar o fazendeiro de morte: ou dá, ou desce! Por trás
da ousada ação governamental, se esconde uma virtude da economia
agrária: a modernização da agropecuária tornou
as terras produtivas.
Parece conspiração, mas é apenas com base em fatos que
Graziano chega à lógica perversa por trás da MP 192.
As metas da reforma agrária, de assentar mais 400 mil famílias,
em quatro anos, escreveu o agrônomo no Estado de S. Paulo, partia
do pressuposto de que existia enorme estoque de terras ociosas, prontas para
serem desapropriadas. Ao serem realizadas as vistorias, percebeu-se que as
propriedades eram produtivas, impedindo sua desapropriação.
Felizmente, a tecnologia substituiu
a oligarquia.
O governo do PT trombou com a realidade e não pôde seguir adiante
na vontade ideológica de destruir o latifúndio com a desapropriação.
Ao decidir que quer comprar terras para cumprir a meta, o governo diz que
o equívoco é da realidade, em vez das metas. Conclusão
de Graziano, um especialista em assuntos agrários: Mantém-se
a insanidade do processo, e dane-se o custo. O governo precisa encarar a questão:
está na hora de discutir um novo modelo, não mais centrado na
distribuição de terra, mas na defesa do emprego rural.
Portanto, está no ar a pergunta que não quer calar: aonde mesmo
é que o governo Lula quer chegar com a MP 192? Contradiz tudo o que
ele sempre defendeu, mas há meandros nesse processo que estão
fora do alcance da vista política. Pois agora começa a fazer
sentido a fúria do abril vermelho de Stedile, pela primeira
vez, contra terras produtivas. Pelo visto, o companheiro Lula entendeu a mensagem!
É isso?!
28 / 06 / 2004
Fonte: Revista Primeira Leitura
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