CONVERSA DE BOI
VOLTAR
Texto de Luiz Guerra

Se já era de uma tristeza infinita o olho fatalista do boi, imaginem agora quando vê suas pastagens ganharem o estatuto de terra 
ociosa, ele que só sabe comer capim e que só abandona essa dieta frugal se o forçarem a isso. Até compreende o  açodamento 
dos sem-terra, a luta que vêm travando pelo país adentro contra o latifúndio improdutivo, o jogo de avanços e recuos  por  parte 
de um governo que anda acendendo muitas velas para muitos senhores, mas pede apenas, a todos  os  implicados  na  questão, 
que voltem, se for o caso, aos bancos escolares e consultem o velho compêndio: o boi é um herbívoro ruminante, só isso. 
As conseqüências que uma tal classificação possam acarretar é só com o boi e a gramínea; a  gramínea  sabe  perfeitamente o 
que o duplo estômago do boi vai fazer com ela e não se incomoda, mesmo porque   tem  consciência  de  que  em  determinado 
momento, como num sonho alquímico, surgirá como carne vermelha; depois disso, os homens que  tenham  bastante  vergonha 
na cara para que não falte carne vermelha na casa de ninguém. A única coisa que não interessa ao  boi  e  à  gramínea  são  os 
capangas dos latifundiários e os teóricos do MST, estes com a mania de que o capim é improdutivo,  e  aqueles  com  o  vez  o 
oligárquico de que trabalhador rural, longe das suas garras, é bandido. Acho que esses caras ainda não entenderam  muito  bem: 
o boi no pasto, com toda essa pinta rousseauniana de passeador solitário e esse olho que chega a doer de tanta tristeza, sintetiza 
a celulose em aminoácidos essenciais — alguém tem idéia de quantas horas Deus ficou sem dormir só para resolver essa equação? 
Pois é, o boi também não tem, mas vai fazendo o que sabe com toda a generosidade. Na Europa, onde o boi já não pode contar 
com todo esse mundão de verde que começa a ficar ameaçado entre nós, usam-se o confinamento panóptico e o arraçoamento 
artificial, avacalhando a carne vermelha. E ainda queriam que a vaca não ficasse louca... Lá fora chegam a chamar o nosso herói 
de boi "verde"; o nosso boi dispensa — sabe que não é verde, verde é a gramínea, e os dois só querem mesmo é cumprir o seu 
papel abençoado, dando de comer ao país e ao resto do mundo. Não dá para os pecuaristas, o governo e o MST deixarem de amolar 
o boi? Ainda ontem, um desses bois que já andou espiando muita cartilha dos sem-terra e ouvindo muita conversa para boi dormir 
entre os pretensos donos da terra comentava comigo: "Dizem que o bom cabrito não berra, mas eu não sou cabrito. Sou é muito boi, 
e vou botar a boca no mundo."