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Agrotóxicos e grãos transgênicos

27/05/2015

FRANCISCO GRAZIANO NETO – Boa tarde a todos e a todas. Permitam-me utilizar esse púlpito para fazer minha palestra, porque eu sou descendente de italiano, e italiano para falar gosta de mexer as duas mãos... por essa razão nunca me dei bem segurando o microfone, acho difícil me expressar, até porque como a vida toda fui professor, o meu improviso segue um certo roteiro, manuscrito numa folha que precisa estar visível. É um costume meu, sem nenhuma presunção.

Eu agradeço esse convite, que mais uma vez me trás ao Mato Grosso em eventos com formato distinto daqueles que costumo participar em outras regiões do país. Faço palestras variadas, muitas, mas eu nunca participei - e aqui já a segunda vez, pois eu estive em Cuiabá há alguns meses – de um evento que mistura agricultor com magistrado, Agronomia com Direito. Isto é algo inusitado, e talvez seja por si só uma prova interessante do porquê os agricultores e suas lideranças do Mato Grosso estão fazendo uma boa diferença, positiva, em nosso país. Não apenas a APROSOJA, mas todo o sistema da FAMATO, as entidades são inovadoras, especialmente considerando outras situações no nosso país, de alguns estados, São Paulo entre eles, onde as lideranças de agricultura são muito tradicionais; aqui parece existir certa juventude própria de quem está abrindo as fronteiras do desenvolvimento, e isso é muito legal.

Convidaram-me para falar de assuntos meio espinhosos: agrotóxicos, transgênicos, saúde, meio ambiente. Sabem os que me conhecem, ou que ouviram na apresentação de meu currículo, que sou engenheiro agrônomo, sou economista rural, sou doutor em administração pela FGV, quer dizer, tenho lá minha formação técnica carregada, mas eu não sou advogado. Certamente conheço um pouco como pensam os que trabalham com Direito, porque nos cargos públicos que ocupei, especialmente no último, como Secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, eu tive interlocuções custosas, e contumazes, com o Ministério Público Estadual, com representantes do Poder Judiciário, discutindo exaustivamente as causas que movem algumas questões que aqui possivelmente irão nos interessar.

De qualquer forma, me permitam utilizar termos que talvez não sejam os mais apropriados dentro do arcabouço jurídico, mas pelo menos dentro dos temas (transgênicos, agrotóxicos, etc), desses eu entendo muito bem sobre o que vou falar. Tanto lá em Cuiabá, quando estive a outra vez, como aqui desta, com esse título que me deram a palestra: “Mitos ou Realidades sobre o agronegócio”. Daí eu percebo certa tentativa do grupo organizador desses eventos para fazer essa inusitada discussão, juntando o setor rural com o poder judiciário do Mato Grosso para tentar descobrir, vamos dizer assim, afinal onde é que está a verdade sobre tais delicados assuntos. Vamos lá.

Acontece que, no meu modesto ponto de vista, esta é uma discussão filosófica, além de jurídica ou agronômica. Existe mesmo a “verdade”, ou tudo depende de uma interpretação que a gente faz dos fatos? É uma questão muito importante e difícil. Seja na discussão dos agrotóxicos, ou dos transgênicos, ou qualquer outro assunto, enfim, do ponto de vista do pensamento filosófico, você pode questionar: existe verdade absoluta ou tudo depende da visão a priori de quem está analisando o assunto, que enviesa o ponto de vista? Quando a gente discute em casa com a mulher e com os filhos, o quê é que a gente fala mesmo? Ah, essa é a sua verdade, a minha é outra, não é assim que termina a discussão? Eu acho muito rico poder discutir essa questão que é, em certo sentido, filosófica, a partir dos temas da agronomia, eu estou me sentindo motivado, me preparei para tal exercício pedagógico, sem que eu venha aqui trazer verdades para ninguém.

Qual é a função da ciência? Desde quando, no Iluminismo, ela começa a se impor como método de investigação, quando surge a experimentação, quando a idade das trevas medieval começa a ser substituída pela razão, joga-se a luz da racionalidade ao conhecimento então totalmente religioso. Acredito que somente a ciência e o conhecimento podem trazer as respostas que nós queremos dar. Acontece, porém, que entre as ciências existem também variadas disciplinas, todas buscando conhecer a realidade do mundo. Basicamente, sabem disso, as ciências são classificadas em três grupos: primeiro, existem as ciências exatas - a matemática, a física, a química. Nestas, normalmente você fala 2 + 2 são 4, e acabou a conversa, aí não tem discussão; em química se você misturar tantas moléculas disso com aquilo vai resultar num produto fixo, independentemente de você estar aqui, na China, embaixo da terra, ou na atmosfera, vai acontecer a mesma reação química. Nas ciências exatas, portanto, nós ficamos mais perto de responder a essa questão da verdade, pois quando ela oferece um resultado, você pode confiar. Não tem discussão. Daí veio os teoremas, que você aprende e não discute; eu sempre fui fascinado pelos teoremas, me interessava em quem os tinha formulado, porque era assim um negócio tipo “batatolina”, como se diz lá na minha terra, em Araras. Falou, tá acabado!

Nas ciências biológicas já se passa um pouco mais complicado. Na agronomia, ou na própria biologia, em todas essas ciências que estudam processos ligados à vida, essa questão do resultado ser indiscutível não se passa como nas ciências exatas. Sempre tem uma vírgula, um depende, um senão, uma condição, relacionados com o meio onde se processa o experimento. Pegue um caso mais simples, como plantar soja: existe uma tecnologia básica, todos a seguem, mas a produtividade a ser obtida depende se houve sol, se choveu, tem um ano que fez muito calor, o outro fez frio, nunca se terá certeza do resultado na colheita. Nas ciências biológicas a busca do conhecimento e o resultado da ação sempre estarão dependentes de leis da natureza, ou das leis dos seres vivos, os mamíferos, os insetos, as plantas, qualquer que seja aquilo que se está estudando. Muito bem. Então, se nas ciências exatas você não discute o resultado, podendo-se dizer, por semelhança, está aqui uma verdade, nas ciências biológicas, como acontece na agronomia, existe sempre certa incerteza que depende do funcionamento das leis naturais, dos ecossistemas, do clima, e assim por diante. Nada é, portanto, absolutamente verdadeiro.

O terceiro grupo das ciências, e me desculpem se estou espichando isso, reside nas ciências sociais - a sociologia, a economia, a política, a antropologia, aquelas ciências que estudam o homem nas suas relações ou com outros homens, ou com o meio de vida. Nas ciências sociais, falar em verdade absoluta é mais complicado ainda. Se, na matemática, você pode afirmar com segurança, enquanto que nas ciências biológicas tudo depende, nas ciências sociais fica mais complicado ainda porque entra um elemento chamado ideologia, que contamina a cabeça do pesquisador, do cientista, levando a interpretações variadas, distintas e até contraditórias sobre o mesmo fenômeno que se está analisando. Entra no raciocínio aquilo que nós chamamos de “valores”, os valores das pessoas em geral. Isto é reconhecido por todos os epistemologistas há tempos, não é nenhuma novidade o que eu estou falando aqui, sobre essa classificação das ciências e as suas interferências, no caso de leis naturais, noutro caso de posicionamentos mentais, de valores humanos. E essa é a razão pela qual as pessoas divergem sobre assuntos, mesmo banais, que às vezes nos deixam intrigados, sem entender o porquê de uma pessoa, vendo o mesmo fato, pensa completamente diferente de você. Por exemplo, sobre aquele mendigo que vem pedir esmola pra gente nas ruas: uns, radicais, dizem: não, eu não dou esmola de jeito nenhum, isso só piora a situação; já outros não conseguem evitar o gesto e fazem uma doação; um acha que está ajudando o mundo, e não dá nada; e outro acha que está ajudando o mundo exatamente fazendo o contrário, dando esmola. É curioso: eles agem de forma contrária um do outro, mas ambos se justificam com a mesma causa, a melhoria do mundo.

Eu quis inicialmente mostrar que, quando a gente olha uma realidade - e aqui eu estou vendo a realidade do mundo rural, da agricultura, a realidade da aplicação de defensivos agrícolas, os agrotóxicos, os produtos transgênicos - sempre que você olha uma realidade e busca interpretá-la, você está sujeito a um viés. E esse viés, esse olhar que às vezes é um pouco torto na interpretação da realidade, muitas vezes acaba influenciado pelas ideologias. Muitas vezes também esse viés é influenciado pela informação do passado, isto é muito importante, e eu queria reforçar para a reflexão de vocês. A interpretação que você faz da realidade muitas vezes está influenciada pela interpretação que outros já fizeram em momentos anteriores, e a transmitiram para você, não sendo propriamente aquela que você está vendo ali: você está influenciado por essas outras informações.

Vou falar, e exemplificar, acerca dos agrotóxicos. Quando surgiram os agrotóxicos no mundo, sintetizados quimicamente em 1939, com a síntese da molécula do DDT, que inicialmente era utilizada no combate à malária, e não na agricultura. Após a Segunda Guerra Mundial se descobriu que essa mesma molécula que matava os pernilongos da malária, poderiam servir para matar os besouros ou as lagartas que comiam as plantas, e aí então se passou a utilizar pesticida formulado sinteticamente. Antes disso, como é que se fazia? Os egípcios, no Egito Antigo, já usavam produtos para combater lagartas, e o quê que eles utilizavam? Qual é o primeiro produto que se relatou historicamente de uso com essa finalidade? Eram as cinzas da madeira recolhidas na fogueira. E funcionava. Se você tem um pé de couve em casa, sabe quando dá aquele pulgão, aquele monte de bichinhos na folha da couve, sabe como é que é? Pois então, pega a cinza do fogão à lenha, embora hoje em dia ninguém tem mais fogão, mas enfim, na fazenda tem, pega uma cinzinha lá, e a acidez das cinzas, na verdade é o potássio nela existente, acaba ajudando você a controlar o ataque de pulgão no broto da couve. Conhecimento milenar.

Mais para frente, a civilização passou a utilizar outros produtos, e outros produtos químicos muito complicados - como arsênio, chumbo, mercúrio, estanho – pois esses foram os primeiros defensivos utilizados até o surgimento do processo químico de formulação de moléculas quando se sintetizou o DDT. Então vejam que o uso de pesticidas é histórico, é antigo, mas modernamente defensivo agrícola se chama basicamente a criação de moléculas sintetizadas em laboratório. Desde então começou a polêmica. Em 1962 foi publicado nos Estados Unidos um dos livros mais famosos do mundo, chamado “Primavera Silenciosa”, de uma jornalista chamada Rachel Carson. Essa jornalista, que não era só jornalista, era uma bióloga também, ela dominava as pesquisas, e mostrou naquela época que os ovos dos pinguins da Antártica estavam contaminados com resíduos de defensivos clorados, utilizados nas lavouras dos Estados Unidos. Puxa vida, nos ovos dos pinguins!

A partir dessa denúncia, um dos fatos midiáticos mais extraordinários nessa temática, esse assunto dos agrotóxicos tomou conta da opinião pública. Ao mesmo tempo, já nos anos 1970, o mundo já estava olhando naquilo que acontecia com as chaminés das indústrias que estavam poluindo a atmosfera, e a causa ecológica, ou o problema ambiental começou a se destacar no mundo. Eu sou formado em 1974, na ESALP em Piracicaba, e há 40 anos ninguém falava de ecologia, de meio ambiente, de nada disso, nem na melhor escola de agronomia da América Latina! Vejam, portanto, que esse tema é relativamente recente na humanidade.

Logo depois que eu me formei, nós ainda vivíamos no regime militar, a primeira eleição para governador foi em 1982, e nós os agrônomos de São Paulo, alguns se lembram disso, porque comentam comigo, nós entramos numa briga contra o uso desregulado dos agrotóxicos. Nós defendíamos o quê? Nós queríamos que se proibisse a utilização desses produtos altamente contaminantes que apareceram lá nos ovos dos pinguins, e nós defendíamos que, à semelhança dos médicos, na agricultura também devesse existir uma receita agronômica para a venda dos defensivos agrícolas. Eu me lembro de, pelo menos, cinco anos muito intensos, entre 1977 e 82, nessa luta pelo receituário agronômico e contra o uso inadequado de agrotóxicos. Em 82 houve a primeira eleição após a ditadura militar, os governadores de oposição ganharam, e aí nós começamos a fazer política dentro dos governos; o Montoro ganhou em São Paulo, Tancredo Neves se elegeu governador em Minas Gerais, enfim, foi essa época, eu ainda muito jovem, mas todos nós que fazíamos política meio escondida, por medo dos militares, começamos a fazer política mais às claras. Nós não fizemos nada clandestino, e deu certo: a luta dos agrônomos de São Paulo ficou conhecida, e muita gente dela participou. Trouxe resultados? Sim. Em 1985, todos os agrotóxicos clorados tiveram seu uso proibido no Brasil; durante os anos anteriores, e alguns anos posteriores, todos os inseticidas a base de cloro foram eliminados em todo mundo; os terríveis produtos mercuriais que eram muito utilizados, por exemplo, nas lavouras de tomate, sendo altamente contaminantes e perigosos à saúde humana, também foram proibidos para o uso agrícola (mais tarde, até nos termômetros deixaram de ser utilizados).

Muito bem. Eu achei importante mostrar um pouco dessa evolução histórica no uso e aplicação dos agrotóxicos em razão de meus argumentos anteriores: muito da nossa interpretação da realidade, hoje, está influenciada pelo conhecimento passado. Por que eu estou dizendo isso? Pelo fato de que os novos produtos que atualmente a indústria sintetiza em laboratório para o combate de pragas e doenças, essas novas moléculas são completamente diferentes daqueles produtos utilizados anteriormente, mas ainda as pessoas raciocinam sobre os agrotóxicos como se os agricultores estivessem utilizando aquelas mesmas porcarias químicas do passado. Toda a realidade está diferente, salvo as exceções, mas como o conhecimento sobre esses assuntos são muito técnicos, muita gente olha essa situação pensando sobre o passado, imaginando que ele continua se repetindo no presente. Na verdade nós estamos passando por uma revolução em termos tecnológicos, nesse setor dos defensivos e em vários outros. Constantemente novas tecnologias agropecuárias se desenvolvem. No caso dos defensivos, as moléculas que começaram a ser sintetizadas há 20 anos geraram uma gama de produtos conhecidos por “seletivos”, que matam a praga sem afetar insetos úteis. Os inseticidas antigos matavam a lagarta e 100% de todos os demais insetos atingidos, inclusive aqueles insetos benéficos que comiam a lagarta, controlando-a naturalmente. Hoje os agricultores, aqueles que acompanham a evolução da tecnologia, estão cada vez mais utilizando produtos seletivos que aniquilam uma praga ou doença, mas não matam o peixe. Além do mais, boa parte das moléculas de defensivos agrícolas sintetizadas hoje nos laboratórios é biodegradável, e assim não se as encontrará mais nos ovos dos pinguins da Antártica. Isso é sensacional.

Eu não estou falando para vocês que 100% dos produtos já sejam dessa geração ambientalmente segura. Mas se eu olhar a tendência do que está acontecendo, eu ousaria dizer que não passará mais uma década, que essa revolução estará complementada. Os técnicos desse setor falam em gerações, agora estamos na 4ª geração; a primeira foi a do cloro, do mercúrio, do enxofre, a segunda do DDT, do BHC. Lembram-se do BHC, aquele pó branco que se utilizava para matar formiga? Pois era terrível, matava a formiga, contaminava o lençol freático e envenenava o aplicador, até que foi proibido e surgiu a isca granulada para combater a saúva, que também acabou foi substituída pelos piretróides, os mesmos inseticidas que nós passamos em casa, que por sua vez substituíram o Detefon, lembram-se dele, que matava o mosquito e envenenava o nenê também? Tudo mudou. Agora são outras moléculas, outros produtos, pouco tóxicos, biodegradáveis, muito menos problemáticos.

Quando você analisa esse processo evolutivo, chega a ser surpreendente. Agora, venham cá, vocês acham que as multinacionais estão fazendo isso porque elas estão preocupadas com o meio ambiente, que elas são boazinhas? Eu não arriscaria dizer isso. Empresa capitalista existe para ganhar dinheiro. Mas acontece que elas foram submetidas a uma pressão da opinião pública tão forte, e certamente também há um controle de seus próprios técnicos, que isso foi puxando para o lado positivo, e foi puxando para o lado da melhoria tecnológica. Todo mundo ganhou nesse processo.

A atual quarta geração de agrotóxicos, com alguns produtos já no mercado, baseia-se em moléculas que danificam processos vitais dos insetos, por exemplo, impedem a lignificação das asas dos besouros (lignificar significa aquele endurecimento da asa do inseto), bloqueando os hormônios responsáveis pelo processo bioquímico que promove esse fenômeno, ou então certos produtos que impedem a manifestação genética de algumas características vitais. Rigorosamente - e aqui fala alguém que lutou muito por isso, afinal meu primeiro livro, de 1982, trata dos agrotóxicos, junto com o Santin Gravena, que é lá da UNESP de Jaboticabal, um professor conceituado e conhecido devido ao controle integrado de pragas – tais produtos químicos não podem nem ser chamados “agrotóxicos”, porque o nome de agrotóxico derivou daqueles produtos como os mercuriais ou os organoclorados e fosforados, que eram muito perniciosos ao meio ambiente e à saúde humana.

Se eu quisesse, e se eu pudesse, falaria mais sobre os agrotóxicos e sua evolução, mas por enquanto está suficiente, porque agora eu quero falar dos transgênicos, e vou falar no mesmo sentido, embora um pouco diferente. Quando é que surgiram os produtos transgênicos? A história é a seguinte: em 1972 um grupo de cientistas percebeu que uma determinada bactéria chamada agrobacterium transmitia um pedaço da carga genética dela para o seu hospedeiro, um fungo, para que esse hospedeiro produzisse um açúcar de interesse nutricional para a bactéria. Cerca de 10 anos depois dessa observação empírica, um laboratório de cientistas na Bélgica, isso em 1982, realizou tal experiência em laboratório pela primeira vez, conseguindo retirar um pedaço do gene de uma espécie e inserir no cromossomo da outra, à semelhança daquilo que aquelas bactérias faziam na natureza. A partir daí apareceu a tecnologia transgênica. Mas ela surgiu num momento, no inicio dos anos 1980, quando já existia a questão ambiental no mundo sendo aflorada, entre outras razões por conta da poluição e dos agrotóxicos. Bem, o quê aconteceu? Aconteceu que a novidade científica sofreu com o preconceito religioso tradicional, que sempre se manifesta ao se deparar com os resultados inusitados da ciência quando esta parece desafiar as leis divinas, pois desde Copérnico, vocês sabem das histórias, pessoas eram enforcadas, outras queimadas, porque foram considerados hereges. Bem, a esse preconceito religioso e medieval, se juntou uma luta moderna, que é a luta ecológica, e os produtos transgênicos acabaram sendo taxados de comida “Frankenstein”. Isso ocorreu em 1985.

Curiosamente alguém, naquela época, querendo argumentar contra os organismos geneticamente modificados, lançou um boato dizendo que havia surgido o “boimate”, que seria a mistura do boi com o tomate. Um absurdo, claro. Mas, por incrível que pareça, muitas pessoas acreditaram que aquilo era verdade, que os cientistas tinham inventado um boi avermelhado com sangue de tomate. A incrível mentira serviu para aumentar a celeuma entre as pessoas menos informadas, e de repente boa parte da opinião pública ficou contra os produtos transgênicos: “isso não é coisa de Deus”. Só que, conforme adiantei, os cientistas viram o fenômeno inicialmente acontecer “nas coisas de Deus”, um processo da natureza, apenas depois copiado em laboratório. Em geral os cientistas procedem assim: eles veem como é que funciona na natureza, depois tentam replicar no laboratório. Muitos medicamentos dessa maneira foram descobertos, como a aspirina, descoberta inicialmente em uma planta parecida com o chorão, utilizada pelos indígenas, e dali sintetizaram a molécula do ácido acetil salicílico (AAS), o componente químico da aspirina moderna; resultado, em vez de você tomar 200 litros de chá para passar a dor de cabeça, toma um comprimidinho só, porque é sintetizado em laboratório, e vem mais concentrada.

Carregada de suspeitas essa polêmica sobre os transgênicos chegou aos nossos dias. Os primeiros produtos que foram lançados no mercado - variedades de soja resistentes ao herbicida glifosato - datam de 1994, desenvolvidas nos USA. Mais tarde, quando estavam sendo introduzidas no Brasil, em 1998, eu me elegi Deputado Federal, fui para Brasília e chegando lá no Congresso a nossa luta era a seguinte: olha, vamos dar uma “moratória” para esse negócio de transgênico. O Fernando Gabeira, que era deputado e é um homem notório, liderava essa proposta da moratória de 5 anos para os transgênicos. Argumentava que nesse período, sem que se pudesse aprovar nada, melhor se poderia avaliar a nova tecnologia. Tudo bem. Foi aprovada a moratória dos transgênicos.

O tempo passou, as dúvidas foram sendo explicadas, a Embrapa se manifestou favoravelmente, as regras da biossegurança foram bem estabelecidas e hoje, passados 20 anos, 51 países utilizam dezenas de produtos transgênicos. Mesmo a Europa, que sempre foi mais resistente, utiliza em quase todos os seus países. Existem 150 milhões de hectares no mundo produzindo com variedades de plantas transgênicas, e nunca, nunca a literatura internacional registrou problema de saúde humana advindo da ingestão de produtos transgênicos. Mas ainda existem resistências contra a tecnologia. Por quê?

Sinceramente eu não sei ao certo explicar, embora eu entenda porque elas existem. Para as pessoas mais idosas, como a minha mãe, que tem 83 anos, que é católica, apostólica e romana, não há o que tire da cabeça dela que esse negócio de transgênico é perigoso. Eu nunca tentei convencer a minha mãe, não adianta. Meu avô que era italiano, mais teimoso ainda, faleceu com 93 anos, faz uns 10 anos, e morreu sem acreditar que o homem tivesse chegado à Lua. Ele falava: “isso aí é coisa de televisão”! Então existem crenças que permanecem. Por isso estou aqui repetindo: na interpretação da realidade, muita gente se influencia pelas suas ideologias, ou pelas coisas do passado, por aquilo que você pensa, ou por aquilo que fizeram você pensar, você põe na cabeça e não tira nunca de lá.

Existem também “gerações” na engenharia genética. Nós já estamos na quarta geração, que agora está desenvolvendo produtos sensacionais, plantas que são resistentes à seca, por exemplo, adaptadas aos países que sofrem por problema hídrico, a começar por Israel, Oriente Médio inteiro, Austrália terrivelmente, esses países estão investindo fortemente em plantas que se aproveitam de características genéticas de plantas resistentes a seca, aqueles “matos” que, notoriamente, dentro de uma bruta de uma seca, ele fica verdinho, certamente por conter uma resistência genética não encontrada nas lavouras normais de soja, milho etc. Os cientistas estão pesquisando nessa linha há muitos anos, tentando ver como através da engenharia genética se poderá avançar no combate ao chamado stress hídrico.

O primeiro produto transgênico que apareceu, a soja RR, foi lançada no mercado pela Monsanto. Muitos atribuem a resistência aos transgênicos por conta deste evento. Acontece que o herbicida Roundap (à base do produto técnico chamado glifosato) também era comercializado pela mesma Monsanto, então se argumentava que a multinacional faria uma espécie de “reserva de mercado” com a nova variedade. Tudo ficou mais confuso porque, sendo norte-americana, a empresa competia com as empresas europeias, como a Bayer, que não dispunham ainda de tecnologias prontas na engenharia genética. Existe uma história não contada de que na Europa se ajudou a turbinar essa fofoca de que essa soja transgênica fazia mal, numa guerra comercial para ferrar a Monsanto. Faz sentido? Claro que faz. É verdade ou é mentira? Sei lá, nunca ninguém provou.

Eu estou falando de 20 anos passados nessa polêmica dos transgênicos. Hoje com a evolução da nova ciência chamada biossegurança, que antes não existia, laboratórios, e laboratórios públicos da UNICAMP, da USP, da EMBRAPA, têm se dedicado à engenharia genética com competência e segurança ambiental. A EMBRAPA desenvolveu uma variedade de feijão transgênico, resistente ao vírus do mosaico dourado, uma doença terrível que somente quem algum dia já tentou plantar feijão sabe como é, uma tristeza na lavoura. Veja, eu não estou falando de uma empresa multinacional, mas sim da EMBRAPA; eu não estou considerando um produto de exportação, eu estou falando de feijão, da comida do povo; e não estou falando de grande produtor rural do Mato Grosso, que tem 100 mil, 200 mil, 500 mil hectares. Ou seja, a engenharia genética pode muito bem servir ao interesse público, atender à população, mas infelizmente a EMBRAPA está 10 anos atrasada nessa pesquisa por conta da resistência política e ideológica aos transgênicos, que a cerceia. Basta conversar com os pesquisadores da EMBRAPA. Eles são conhecidos; quem desenvolveu o feijão resistente ao mosaico amarelo é o doutor Francisco Aragão, o chefe da equipe de pesquisadores, que trabalhou num produto já reconhecido cientificamente como sensacional, mas ainda não lançado comercialmente devido à essa lerdeza, esse atraso no conhecimento tecnológico.

Eu pergunto: existe problema de resistência de pragas em lavouras transgênicas? Sim, ou não? Sim. Existem resistências de ervas daninhas em lavouras transgênicas? Sim, ou não? Sim. Tais problemas agronômicos, porém, têm sido relatados seja nas lavouras transgênicas e seja nas lavouras não-transgênicas, pois as pragas adquirem resistência, as ervas invasoras aparecem, e é por isso que a ciência agronômica evolui constantemente, exatamente procurando superar os obstáculos do campo. Então, eu pergunto: a resistência desses organismos deve-se ao uso dos produtos transgênicos? Não, em absoluto, vem de antes. Novas pragas estão aparecendo por causa dos transgênicos? Não, elas já explodiram muito antes dos organismos geneticamente modificados serem utilizados na produção rural. O professor Adilson Paschoal, da ESALQ, em Piracicaba, lançou um livro em 1979, chamado “Pragas, praguicidas e a crise ambiental” no qual mostrava que as pragas da agricultura em 1950 eram 173, e passaram a ser 400 em 1975. Triplicaram em 25 anos. Isso mostra que tais fenômenos, como o surgimento de novas pragas, ou a resistência de insetos, ou ainda das ervas invasoras é algo que acontece continuadamente desde o surgimento da agricultura.

Eu vou finalizar, dizendo que quando a gente trata de assuntos desta natureza, que são complexos pois se relacionam aos seres vivos e suas interações com o meio ambiente, nós precisamos ser mais precisos, sendo necessário se alicerçar no conhecimento atual, na realidade objetiva dos fatos, e não naquela carga que carregamos do passado. Esse é o ponto crucial. É compreensível que todos pensem o que pensam, mas é preciso se ater aos fatos como eles são, e a questão da precisão, da informação, deve substituir o “achismo” no pensamento, aqueles conhecimentos superficiais que têm, penso eu, em muitas vezes influenciado inclusive algumas decisões jurídicas. Desculpem-me a ousadia, Como técnico e estudioso, defendo ser necessário substituir o achismo pela informação precisa e, principalmente, atualizada, sobre essa agenda problemática que aproxima os agricultores dos advogados. Disseram-me aqui que os agrotóxicos estão contaminando o lençol freático. Eu pergunto: aonde? Qual o produto químico responsável? Qual laboratório realizou a amostragem? Os defensivos agrícolas, por exemplo, se se suspeita que num local qualquer estejam contaminando as nascentes ou os mananciais, ora, é fácil comprovar isso: manda perfurar o solo, tira uma amostra d’água, envia para o laboratório, e logo se saberá precisamente se, de fato, a suspeita se confirma. O que não pode é criar no papel, nos despachos e nos relatórios, a contaminação ambiental sem que ela seja confirmada analiticamente.

Desde quando surgiram os produtos clorados, que eram persistentes no meio ambiente, aqueles que apareceram até nos ovos dos pinguins, havia realmente muitos problemas de contaminação de mananciais. Mas os agrotóxicos clorados foram proibidos há décadas, e hoje em dia eu pago para ver esse problema ecológico ocorrer, pois eu não conheço região de agricultura bem feita aonde se utiliza ainda esses defensivos antigos. A não ser que tenha algum agricultor maluco que ainda compra do Paraguai, não sei, na Bolívia, sei lá onde, uns vagabundos de uns produtos que podem ser baratos para passar na sua lavoura, eu não sei... Tem alguém aqui que faz isso? Sinceramente entre os agricultores modernos daqui eu duvido que algum faça uma besteira dessas. E se tiver, vai lá e denuncia ele, para não sujar o nome de todo mundo.

Reforço: a precisão da informação é muito importante, e sobre isso vou dar três exemplos. Primeiro, os críticos gostam de falar que o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Certo, ou errado? Tá certo, mas apenas em parte, qual seja, no volume comercializado. Acontece que o Brasil tem uma das maiores agriculturas do mundo, e nós fazemos agricultura tropicalizada, muito diferente da agricultura nos Estados Unidos, ou da Europa, onde existe um período do ano que fica gelado no inverno, o que causa uma forte redução nos patógenos, e por consequência uma menor aplicação de defensivos agrícolas. É muito importante saber disso: o inverno acaba sendo o melhor defensivo agrícola que existe na Europa, favorecendo igualmente os concorrentes da soja brasileira lá no cinturão verde nos Estados Unidos. A neve efetua excelente controle de pragas e doenças nas lavouras do mundo temperado, pois quando ela cobre o terreno se aniquilam os insetos adultos e as larvas, bem como se reduz a multiplicação dos fungos e bactérias. Além disso, ainda elimina os restos culturais, realizando naturalmente aquele período que no Brasil se tem chamado de “vazio sanitário”, necessário para controlar certas pragas da soja, especialmente.

O Brasil tem uma das maiores áreas cultivadas do mundo, e a maior área plantada em região tropical, portanto ele tem o maior consumo mundial de volume total de defensivos, mas quando você divide esse volume pela área plantada, descobre que o Japão gasta vinte vezes mais que o Brasil, em consumo de defensivos por hectare cultivado. A Holanda, a França, todos eles gastam muito mais agrotóxicos por área de lavoura. Então, dizer que o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, eu diria, é uma informação parcial, que deforma o raciocínio se utilizada simplesmente, sem ponderação.

Vamos a outro exemplo: existem resíduos de agrotóxicos nos alimentos? Sim, existem. A última pesquisa que a Anvisa fez, com 1.665 amostras, em sete culturas - abacaxi, arroz, maçã, cenoura, laranja, morango, e pepino - 483 amostras, portanto 29% do total apontaram “inconformidades”. Significa que 29% dos alimentos analisados são impróprios ao consumo? Não. Porque dessas 483 amostras que deram inconformidade, apenas 67 estavam com resíduos acima do limite máximo permitido pela Organização Mundial da Saúde, portanto representando 4% das amostras. Estes aqui, sim, eram problemáticos à saúde humana. As demais inconformidades eram de outro tipo, e nenhuma estava acima do limite para consumo humano. Onde estavam os problemas? O mais comum era a falta de registro para uso. Por exemplo, se encontrou resíduo de defensivo permitido para uso no abacaxi, mas não na maçã, pois o Ministério da Agricultura não o licenciara para tanto, quer dizer, o uso estava irregular, não regulamentado, mas não significava um dano à saúde. E por quê o Ministério da Agricultura não registrou esse inseticida mais amplamente na fruticultura? Porque o Ministério não funciona, é lerdo, e porque as multinacionais gostam de fazer as suas reservas de mercado... Querem que eu continue falando ou posso parar? Melhor eu parar, que eu posso falar uma coisa, e depois ter que provar, mas não conseguirei...embora todos os técnicos sabem que é assim que funciona o lobby na disputa dos espaços. Conclusão: a contaminação por resíduos de defensivos agrícolas nos alimentos, segundo a Anvisa na última amostra, é de 4%. É um problema ou não é um problema?

Claro que é um problema. Você quer que o seu filho coma um alimento dentre esses 4%? No dia seguinte que a Anvisa divulgou essa pesquisa, todos os jornais do país, e todas as televisões anunciaram que 29% dos alimentos no Brasil estavam contaminados. A informação jornalística sempre é a mais sensacionalista. Mas quando você torna o número mais preciso, e o explica corretamente, estamos melhor do que parece. Existem problemas na aplicação de agrotóxicos? Claro que existe. Tem gente que pulveriza fora de hora, tem gente que pulveriza no meio de ventania, tem gente que faz muita bobagem agronômica. Existe preocupação, existe perigo. Agora, não pode generalizar, é necessário dar a informação precisa senão fica pouco científico.

Vamos agora voltar aos transgênicos. Muito antes do lançamento da soja transgênica da Monsanto, a insulina humana, fundamental para ajudar os que são diabéticos, já era produzida por microrganismos transgênicos. A insulina foi o primeiro caso de sucesso mundial na engenharia genética, e já faz décadas que 100% da insulina utilizada no mundo é produzida em processos com organismos transgênicos. Alguém é contra? Ninguém. Então eu pergunto: por que somente se levanta as mais duras críticas contra o agricultor? Parece que é mais fácil xingar o sujeito que usa botina, fala caipira, não sei por qual razão os agricultores são sempre exageradamente criticados. Há 25 anos todos os queijos produzidos na Europa advém de projetos de processo de fermentação por organismos transgênicos, sim, aqueles queijos maravilhosos da Holanda, da Bélgica, da França, da Itália, aqui no Brasil também, advém de fermentação láctea através de microorganismos transgênicos, e nunca ninguém reclamou disso. Nem sabe. Esses produtos foram testados em laboratórios, foram feitas análises de biossegurança, e foram aprovados, de forma que todo mundo come queijo numa boa. É interessante falar essas coisas, relativizar os conceitos, explicar os fenômenos.

Eu fui secretário de estado em São Paulo, não é fácil ser Secretário Estadual do Meio Ambiente. Eu discutia muito com gente do Ministério Público, e perguntava: por quê vocês querem acabar com a vida dos agricultores? Porque acham que eles estão acabando com a mata, acabando com todos os rios, ok, mas então por que não pegam também no pé dos prefeitos, dos vereadores, das pessoas que moram na cidade, cujo cano de descarga da privada não trata um centímetro de esgoto, jogando toda a carga polidora nos rios? Por quê só o agricultor que é culpado por essa equação? Quem matou os rios do Brasil não foram os agricultores, juro que não foram. Foram os esgotos urbanos.

Quem planta até a beira do córrego realmente faz uma bobagem, está errado, e eu espero que ninguém mais faça isso, como faziam no passado. Hoje deve-se preservar a mata ciliar. Eu ficaria mais tempo dando exemplos para comprovar a minha tese, de que é preciso ter conhecimento mais preciso, é preciso ser mais rigoroso na informação técnica, é preciso se livrar de pensamentos antigos, que muitas vezes nos levam para uma equivocada interpretação da realidade. Se se comprovar coisas erradas, batalha juridicamente para consertar; o que não pode é ficar confundindo a todos, confundindo a opinião pública, e jogando sobre as costas do agricultor um problema que não é dele.

Amanhã virá aqui fazer uma palestra o ministro Herman Benjamin, estou certo? Julgo-o uma pessoa extraordinária, ele foi Promotor Público, é uma pessoa de minhas relações há muitos anos, me ajudou quando eu fui Secretário, logo vai para o Supremo Tribunal, porque é brilhante. Eu sempre conversei com ele um tema que não é meu assunto agora, aqui, mas é importante, que é sobre a questão do desmatamento.

Eu tenho uma filha de 14 anos, e há uns três anos eu fui ver o livro texto dela na escola, e me surpreendi. Em geral os livros do ensino fundamental contam a história da devastação ecológica da Mata Atlântica, informando que esse bioma cobria um enorme pedaço no litoral do Brasil, e hoje dela só restaram 9% do original, portanto se comprova assim o tamanho da devastação que foi feita, o danoso desmatamento promovido pelos ruralistas. De uma década ou mais pra cá, os juristas começaram responsabilizar os agricultores por um tal de “passivo ambiental”, uma conta a ser paga pelo processo histórico. Eu sempre perguntei ao doutor Herman: por que esse passivo ambiental cabe somente ao agricultor, e não onera todos os habitantes do Brasil? Vem cá, se não tivesse acontecido o desflorestamento da Mata Atlântica, se meus bisavós não tivessem vindo da Itália pra cá ajudar nos cafezais, pois o café exatamente foi plantado sobre essa supressão na floresta, como teríamos progredido? Ou quer dizer que era para a floresta ficar do jeito original? Mas se tivesse permanecido como no Descobrimento, inexistiria São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto, Campo Grande nem Cuiabá, nada disso existiria. Então por quê que os professores desse assunto, ao invés de colocarem que aconteceu uma devastação ecológica, não dizem que ocorreu um progresso por supressão de vegetação que abriu as portas do desenvolvimento nacional? Por que afirmam ser apenas um negócio pejorativo, levando as crianças na escola a condenarem a atitude dos agricultores de nosso país?

Percebam a relevância da questão conceitual. A visão que você tem sobre o processo, é isso que eu desde o começo estou aqui me referindo a vocês, buscando da minha forma, do meu jeito, com meu agronomês, querendo mostrar que os problemas existem, não tem nada que tampar o sol com a peneira, mas seu combate deve sempre estar baseado na informação mais precisa, mais científica, e menos ideológica. Eu não sou contra ser radical, pois radical no sentido grego é legal, significa você ir à raiz dos problemas. Eu acho que nada substitui o conhecimento científico para você se aprofundar na busca da compreensão dos problemas, nessas coisas do campo que nós estamos falando aqui.

Os assuntos da religião não comportam Ciência, os assuntos da ideologia não permitem muita discussão; pior que a ideologia só mesmo o futebol, eu nunca vi alguém mudar de time, eu tenho três filhos corintianos, eu sou santista, mas como é que eu vou convencer um filho meu a trocar de torcida? Então existem assuntos que você nem discute. Mas outros precisam da luz do conhecimento, e só a ciência pode nos dar isso. Nós como interpretadores da realidade, temos que ter aquilo que aqui no Ocidente se chama “bom senso”, e que no Oriente se chama o “caminho do meio”, local onde mora a VIRTUDE.

Baltazar Gracián, pensador espanhol, escreveu em 1647 o que eu vou ler aqui para vocês. O livrinho dele se chama “A Arte da Prudência”:

“Levar o certo longe de mais, ele se torna errado, a laranja espremida ao máximo dá amargura, e se nós ordenharmos uma vaca em excesso, teremos sangue por leite”.

Obrigado.