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Sobre a Operação Carne Fraca:

20/03/2017

1. Houve, sim, exagero da PF ao anunciar a operação, não informando corretamente que se tratavam de fraudes localizadas em setores de carnes processadas e embutidos, de suínos e de aves, isentando carne bovina in natura; ademais, estavam apenas 21 fábricas/frigoríficos sob suspeita, num total de quase 5 mil plantas processadoras de carnes no país.
2. Como sempre acontece, seguiu-se imediato sensacionalismo da mídia, que adora vender notícia ruim; neste caso a tragédia foi emoldurada com imagens da carne bovina fresca, afetando assim a imagem da agropecuária como um todo; somente agora, esclarecido melhor os fatos, surgiram explicações mais sensatas.
3. Nada, porém, desmerece a ação da PF em desbaratar uma quadrilha que lesava o consumidor em um conluio da Inspeção Federal com grupos industriais processadores de carnes; que se vá a fundo nas apurações contra a corrupção, doa a quem doer e mesmo que ocorra prejuízo nas exportações ou na economia setorial. A moralidade e a decência se impõem no Brasil acima dos interesses econômicos.
4. Suspeitas de esquemas bandidos sempre existiram no serviço de defesa sanitária animal, mas o setor produtivo e suas lideranças, conveniente e temerosamente, sublevavam a situação, a ela se acomodando. Assim como sempre houve demasiada e indesejável interferência política nas nomeações dos responsáveis pela sanidade animal ( e vegetal), numa prática fisiológica que contou com o beneplácito dos governos recentes.
5. Há tempos se discute a necessidade de uma mudança de paradigma, estabelecendo-se um novo modelo de ação pública na defesa sanitária agropecuária; uma AGÊNCIA autônoma poderia substituir com vantagens o atual sistema do SIF, criado ainda na época de Getúlio Vargas, tendo o estatismo como referência.
6. Por esse modelo antigo, os fiscais/veterinários trabalham em escritórios instalados dentro das plantas frigoríficas, para poderem, lá estando, in locu verificar e atestar a qualidade das operações de processamento. Ocorre que o sistema processador de carnes se tornou enorme e complexo, não cabendo mais dentro do modelo tradicional. Ademais, tal proximidade entre o fiscal e a fábrica facilita acordos de conveniência, que acabam derivando para o tráfico de influência e a nefasta corrupção.
8. Agora, desgraçadamente, parece ter chegado a hora da mudança. Não se trata de apenas a PF cumprir com sua obrigação de combater a corrupção instalada no SIF ou alhures; mais que isso, será necessário ter coragem para repensar a atuação do poder público, desenvolvendo um modelo de gestão que garanta, efetivamente, com autonomia e sem interferências externas, a qualidade das carnes do país, consumidas internamente ou exportadas.
9. Ao invés de agigantar o SIF, trata-se de enxugá-lo, reforçando simultaneamente seu poder de polícia para agir contra falcatruas cometidas pelas empresas; mas são estas que devem assumir suas responsabilidades com a qualidade dos bens que processam e comercializam, sendo fortemente penalizadas se não o fizerem. E as universidades, laboratórios e entidades civis devem fazer parte do sistema, assegurando sua transparência.
10. Os analistas do setor sabem que o sistema de inspeção atual é incapaz de corresponder aos desafios contemporâneos de uma nação que conquistou, com méritos e muito trabalho, o mercado global de carnes. Todos defendem mudanças. Veremos se da Operação Carne Fraca seremos capazes de não apenas choramingar, mas extrair as boas lições para construir o futuro.

 

 

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