Administrador que se interessa por pedagogia, engenheiro agrônomo que tem paixão por escrever, professor que sempre se interessou por gestão pública. Xico Graziano é assim: ativo e eclético, diz-se caipira apesar do título de doutor, um homem público que não pode ser definido com a rapidez dos clichês tradicionais.
É “verde” muito antes de a palavra ter se tornado usual. Já nos anos 70, pesquisava tecnologias alternativas no campo, cultivava uma horta orgânica em Jaboticabal e escreveu o primeiro livro sobre ecologia e questão agrária no país.
Sempre se preocupou com a agricultura, por conhecê-la de perto. Nasceu em Araras, numa família do interior paulista que pertence a uma maioria esquecida, aquela formada pelos produtores rurais. Um contingente constituído por aproximadamente 4,5 milhões de brasileiros que não costuma entrar na pauta da mídia ou de governos, salvo quando o debate é polarizado entre latifundiários e sem-terra.
Prioridades na SMA
À frente da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo – a mesma que, quase duas décadas antes, ajudou a semear quando participou da criação do Consema – iniciou várias brigas “do bem”, como costuma dizer. Brigas que exigem boas doses grandes de criatividade, ousadia e perseverança: declarou guerra aos lixões e às queimadas, estabeleceu o protocolo do Município VerdeAzul e lançou o projeto Criança Ecológica, para despertar desde cedo o espírito ecológico e a cidadania, dois conceitos indissociáveis. E esses são apenas quatro dos 21 projetos estratégicos tocados hoje -- afinal, como repete, é preciso ter “mais ação e menos discurso ambientalista”.
Da infância à juventude
Bisneto de imigrantes italianos que se estabeleceram em Araras, interior paulista, no final do século 19, que labutaram e cresceram na vida, cultivando café e, depois, cana de açúcar, Xico Graziano sempre esteve ligado ao campo, mesmo depois de ter chegado à cidade grande. Graduou-se em agronomia (ESALQ/USP, 1974), fez mestrado em economia agrária (USP, 1977) e doutorou-se em administração na FGV (FGV/SP, 1989) – na época do doutorado, era o único “caipira”, com cigarrinho de palha na mão, entre tantos colegas executivos do mercado financeiro e empresarial. Foi nessa época que escreveu “Questão agrária e Ecologia”, um sucesso da então editora Brasiliense, ajudando a levantar a bandeira ecológica quando pouco se falava disso.
Excelente aluno, desde o antigo ginasial, Xico sobretudo gostava de escrever – em Piracicaba, durante a graduação, seus primeiros artigos sobre distribuição de renda e questão agrária despertaram a atenção dos colegas que faziam política estudantil. E é assim que se elege secretário geral do Centro Acadêmico, se torna presidente da Federação dos estudantes de agronomia e, logo, representante no Conselho Universitário da USP.
Para um jovem estudante já fisgado pela política, a São Paulo do começo dos anos 1980 é uma cidade que volta a florescer: é o tempo da reabertura. A esquerda, em seus múltiplos matizes, se mobiliza na campanha de Franco Montoro para o governo em 1982 e, mais tarde, para as eleições de Tancredo Neves para a presidência em 1984 –assumida, porém, em abril do ano seguinte, por José Sarney.
Vida pública
Xico Graziano participa das duas campanhas como delegado do PMDB e, depois, integra-se ao governo em sucessivos cargos técnicos. No governo Montoro, ajuda a criar o Conselho Estadual do Meio Ambiente, embrião daquela que será mais tarde a Secretaria do Meio Ambiente. Outro marco será sua passagem pelo Incra, em Brasília, como chefe de gabinete em 1987 –oito anos depois, se tornaria seu presidente, numa curta, porém inesquecível atuação. Mas muita coisa, porém, ocorre antes disso.
Ainda em 1987, uma tragédia pessoal: um avião cai e morrem seus colegas de Incra. E é assim que, abatido, volta para o interior paulista, retoma as aulas que ministra na UNESP de Jaboticabal, onde lecionou por 16 anos. Dá uma reviravolta na sua tese de doutorado, publicada como “A tragédia da terra”, uma reflexão corajosa e inovadora, em que questiona posições tanto da direita quanto da esquerda, mostrando nela sua posição social democrata.
Pouco depois, a vida pública o reconquista. É convidado por Fernando Henrique Cardoso para chefiar seu escritório político em São Paulo no final dos anos de 1980. Em viagens por todo o país, está ao lado do então futuro presidente da República em sua campanha vitoriosa, história que conta em “O real na estrada”. Torna-se seu chefe de gabinete em Brasília e, quando a questão agrária exige uma resposta rápida do governo federal –logo após o massacre em Corumbiara, Rondônia, em 1995 – é então indicado para presidir o Incra. Quem esteve lá nessa época não se esquece do ritmo urgente e incansável estabelecido por ele para resolver os conflitos: reuniões ininterruptas, que só terminavam quando houvesse uma solução, com representantes do MST e do Incra, donos de terra, prefeitos e sociedade civil. Tudo aberto para a imprensa.
Quando Mario Covas se reelege governador de São Paulo, não é outro senão Xico Graziano quem ele convida para ser seu secretário da Agricultura (1996-98) –um secretário da Agricultura que sempre manteve o olhar ecológico. Dessa época, por exemplo, um dos maiores orgulhos é a criação do programa Melhor Caminho, que engloba um conjunto de técnicas de mecanização agrícola, com o objetivo de impedir, nas estradas rurais, a formação de enxurradas que causam a erosão do solo. Mantido até hoje, o programa já consertou quase 10 mil km de estradas, melhorando a estrada do agricultor, escoando a safra e ajudando as crianças a não perderem suas aulas. A defesa dos pequenos agricultores e, ao mesmo tempo, da natureza marcaria sua atuação em dois mandatos como deputado federal pelo PSDB (1998-2002, 2005-2007).
Idéias e lições
Na política, Xico Graziano atuou no executivo e no legislativo, coordenou campanhas que percorreram o interior paulista e o país inteiro, atuou na linha de frente e nos bastidores, e também soube se retirar quando achou que era preciso.
Das idéias à ação, fundamenta-se sempre na certeza de que a expansão do capitalismo na agricultura apresenta duas questões ao mundo contemporâneo: uma é a da concentração de terra, a outra, a da destruição da natureza. Para ele, a crise ecológica se constitui tanto na cidade como no campo. Ambientalista e produtor rural não devem, portanto, se antagonizar. E conviver com a natureza, colhendo seus frutos e ajudando a preservá-la, é um valor que deve ser cultivado na infância. É por isso que trata com o entusiasmo de professor do seu programa Criança Ecológica, uma pedagogia voltada para o meio ambiente.
No gabinete, em que lança mão de sua objetividade de engenheiro, preocupa-se em estimular os prefeitos a lhe trazer idéias, e não apenas a esperar por elas. Foi com Franco Montoro que aprendeu a descentralizar, incentivando o governo de baixo para cima. Nessa trajetória de três décadas, Montoro não foi o único mestre. Com Fernando Henrique Cardoso, iniciou-se na arte da conciliação; ao mesmo tempo, com José Serra, compreendeu que há coisas que têm de ser feitas, mesmo se não houver apoio. Etanol verde, desmatamento zero, fim dos lixões, entre outros programas que já começaram a transformar a paisagem de São Paulo, exigem rigor. Quando é necessário, Xico Graziano suspende autorizações, licenças e verbas, interdita lixões e postes de gasolina contaminantes.
Da infância na roça à Secretaria do Meio Ambiente, Xico Graziano sempre manteve sua ligação com a natureza. Na antiga fazenda dos pais, em Araras, preservada até hoje por um dos irmãos, ou naquela que mantém em Goiás, encontra inspiração e refúgio --pouca gente sabe, mas ele é capaz de reconhecer centenas de cantos de passarinhos, sobre os quais coleciona livros e pesquisa a respeito. Como sempre diz, viver no campo era antes sinônimo de atraso, hoje representa qualidade de vida.
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VOCÊ SABIA?
> Xico Graziano já pesquisava tecnologias alternativas e possuía uma horta de orgânicos nos anos 70, quando pouca gente falava de ecologia.
> São Paulo é o primeiro Estado a propor um Zoneamento Agroambiental para a agroindústria da cana-de-açúcar.
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